Todos os dias, milhões de chávenas de café são bebidas em Portugal e no mundo — e todos os dias, o que resta no filtro vai parar ao lixo. As borras de café são um dos resíduos alimentares mais abundantes do planeta. Até agora, tinham pouco destino nobre: quando muito, serviam de adubo ou de matéria para compostagem. Um estudo da Universidade de Aveiro veio mostrar que podem ter um futuro bem mais interessante — e comestível.
O trabalho, desenvolvido por Cláudia Passos e Sílvia Petronilho, do LAQV-REQUIMTE (Departamento de Química da UA), e publicado na revista Food Chemistry, partiu de uma pergunta simples: será que ainda há valor escondido naquilo que deitamos fora depois de fazer café? A resposta foi afirmativa. Das borras, as investigadoras extraíram óleo residual, compostos antioxidantes e polissacarídeos que normalmente se perdem no lixo.
Com estes extratos, criaram emulsões do tipo “água-em-óleo-em-água”, capazes de encapsular e proteger substâncias sensíveis à degradação. Os resultados foram promissores: as emulsões protegeram o óleo de café da oxidação lipídica, preservaram os furanos — responsáveis pelo aroma característico do café — e travaram a libertação de aldeídos, moléculas associadas a odores desagradáveis. Um sistema natural de conservação, feito a partir daquilo que normalmente consideramos lixo.
O estudo mostra que é possível transformar um resíduo alimentar abundante numa matéria-prima útil, abrindo caminho a novas aplicações na indústria alimentar e reforçando uma tendência crescente de economia circular: o desperdício de uns pode tornar-se inovação para todos.
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