Cientistas publicam estudo que poderá ajudar a proteger o coelho ibérico

A Península Ibérica alberga duas espécies de coelho e não apenas uma, como se pensava até agora. A conclusão é de um estudo internacional, publicado na revista científica Biological Conservation, o qual propõe o reconhecimento formal do coelho ibérico (Oryctolagus algirus) como uma espécie distinta do coelho europeu comum (Oryctolagus cuniculus). Nesta investigação, participam Nuno Ferrand, Paulo Célio Alves e Pedro Esteves, docentes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (BIOPOLIS-CIBIO)

Cientistas publicam estudo que poderá ajudar a proteger o coelho ibérico

A Península Ibérica alberga duas espécies de coelho e não apenas uma, como se pensava até agora. A conclusão é de um estudo internacional, publicado na revista científica Biological Conservation, o qual propõe o reconhecimento formal do coelho ibérico (Oryctolagus algirus) como uma espécie distinta do coelho europeu comum (Oryctolagus cuniculus). Nesta investigação, participam Nuno Ferrand, Paulo Célio Alves e Pedro Esteves, docentes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (BIOPOLIS-CIBIO)

Este trabalho demonstra que as duas linhagens divergiram há cerca de dois milhões de anos e permaneceram reprodutivamente isoladas ao longo da sua história evolutiva. Atualmente, o coelho europeu comum ocupa sobretudo o norte e leste da Península Ibérica, apresentando populações estáveis ou em expansão. Já o coelho ibérico, restrito a Portugal e ao sudoeste de Espanha, tem registado um declínio acentuado.

Segundo os investigadores, considerar estas duas linhagens como uma única espécie tem contribuído para ocultar a situação particularmente preocupante do coelho ibérico. Se fosse avaliada de forma independente, esta espécie reuniria os critérios para ser classificada como “Em Perigo”, enquanto o coelho comum seria considerado “Pouco Preocupante”.

Para chegar a estas conclusões, a equipa analisou dados genómicos, morfológicos, reprodutivos e ecológicos recolhidos ao longo de várias décadas em toda a Península Ibérica. Os resultados mostram que o coelho ibérico apresenta diferenças biológicas profundas: é menor, mais escuro, menos social, ocorre em densidades populacionais mais baixas, atinge a maturidade sexual mais cedo e produz ninhadas mais pequenas do que o coelho comum.

 

Implicações para a gestão e conservação

Para além do seu valor evolutivo, o coelho ibérico desempenha um papel central nos ecossistemas mediterrânicos, servindo de alimento a várias espécies emblemáticas, como o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica. O declínio desta espécie poderá, por isso, ter consequências para a biodiversidade de toda a região.

“Já não é possível gerir as populações de coelhos na Península Ibérica como se constituíssem uma única entidade biológica. Reconhecer estas duas espécies é fundamental para desenvolver medidas de conservação adequadas e evitar que uma linhagem evolutiva única continue o seu declínio”, sublinha Nuno Ferrand, Professor Catedrático no departamento de Biologia da FCUP e diretor e investigador do CIBIO.

Os investigadores defendem agora uma revisão urgente das políticas de gestão da fauna na Península Ibérica, incluindo o ajustamento dos períodos e quotas de caça e a reavaliação dos programas de translocação de coelhos entre regiões. A equipa pretende ainda desenvolver protocolos que permitam identificar as duas espécies no terreno e delimitar com maior precisão a sua área de contacto geográfico.

“Chegar a este ponto após quatro décadas de investigação é particularmente gratificante. Ver a ciência traduzir-se em consequências concretas para a conservação de uma espécie tão importante do ponto de vista ecológico, social e económico constitui um marco muito especial”, conclui Nuno Ferrand.

 

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